sexta-feira, 13 de outubro de 2017

PATRICIO GUZMÁN: PAIXÃO E MEMÓRIA

PAIXÃO DE MEMÓRIA




Organizado pelo Instituto Vladimir Herzog, entre os dias 05 a 18 de outubro, os paulistanos tiveram a oportunidade de assistir uma retrospectiva composta de 11 filmes do diretor Patricio Guzmán, participar de workshop e conversas com o público. Num destes debates aqui em São Paulo com o cineasta chileno, alguém da platéia lhe perguntou a sua opinião sobre o Brasil e o futuro. Guzmán, respondeu que não gosta de conjecturar sobre o futuro, a matéria do seu trabalho é o passado - sem nostalgia, referência concreta para se pensar o presente. 

Neste caso, o Brasil ainda não conseguiu acertar contas com o seu passado, sobretudo o recente. Foi condescendente com aqueles que usurparam os direitos civis dos brasileiros durante a ditadura - censurando, prendendo, torturando e matando. Ninguém foi condenando. Eles ficaram soltos praticando suas ações e dando um exemplo de impunidade. A sociedade como um todo é cúmplice, parece gostar desta impunidade, desde os mais ricos aos mais carentes, estes, contraditoriamente suas principais vítimas. Mas, o perigo desta situação é que pela importância geopolítica, o Brasil sempre será uma referência para o continente latino-americano, sobretudo sul americano.

Filmes da retrospectiva:

A Batalha do Chile (1975) - parte I, II e III;
Em Nome de Deus (1987);
A Cruz do Sul (1992);
Chile, a Memória Obstinada (1997);
O Caso Pinochet (2001);
Salvador Allende (2004);
Meu Júlio Verne (2005);
Nostalgia da Luz (2010);
O Botão de Pérola (2015).
Filmar Obstinadamente, um Encontro com Patricio Guzmán (2014) - dir. Boris Nicot;


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A METÁFORA DE "O ANJO EXTERMINADOR" Luis Buñuel


Luis Buñuel tem uma filmografia que nos faz pensar até hoje. Mas, nada como lembrar da poderosa metáfora que encerra o filme "O Anjo Exterminador" (1962).


Um grupo de grã-finos se encontram num jantar. Ao passar do tempo acontecem estranhos gestos, estranhas atitudes que mais revelam da falsa aparências, neste jantar, as máscaras pessoais derretem. Ninguém consegue comer, as pessoas começam a se agredirem e desconfiarem uma das outras. É a desmistificação daquelas pessoas. 

O iconoclasta Buñuel, sempre surrealista nos leva a pensar o que somos, ovelhas ou cordeiros? 

Mas, por outro lado, esse filme surgiu num sonho que tive esta noite, ao final se ouvia o Hino Nacional, a polícia dando porrada nas pessoas, enquanto elas berravam feitos cordeiros, adornados com panelas na cabeça. Dentro da sala de jantar, as máscaras continuavam a derreter. Aqueles que antes se vestiam de verde-amarelo e defendiam os bons costumes contra a corrupção, se revelavam ladrões, roubando de um tudo & todos. Um deles chorava enquanto a sua imensa barriga explodia inundando a sala com cédulas de dinheiro (reais, dólares e euros). O vasto país de dimensões continentais não bastava, todos se encontravam prisioneiros, não conseguiam sair. Havia um impasse quem era o mais corrupto, o mais ladrão, o mais pusilânime, o mais mentiroso, o mais cínico...

Acordei, mas o pesadelo continua.

O NOVO ROMANCE DE MILTON HATOUM


Histórias de 1/2 século, mas parecem que foram agorinha. 
O escritor Milton Hatoum saiu de arco e flecha na caça da memória de uma pessoa, de um lugar, de uma nação. 

Companhia das Letras

O novo romance de Milton Hatoum está em pré-venda. 


Primeiro volume da série "O lugar mais sombrio", "A noite da espera" retrata a formação sentimental, política e cultural de um grupo de jovens na Brasília dos anos 1960 e 1970.

Nove anos após a publicação de "Órfãos do Eldorado", Milton Hatoum retorna à forma da narrativa longa em uma série de três volumes na qual o drama familiar se entrelaça à história da ditadura militar para dar à luz um poderoso romance de formação. Nos anos 1960, Martim, um jovem paulista, muda-se para Brasília com o pai após a separação traumática deste e sua mãe. Na cidade recém-inaugurada, trava amizade com um variado grupo de adolescentes do qual fazem parte filhos de altos e médios funcionários da burocracia estatal, bem como moradores das cidades-satélites, espaço relegado aos verdadeiros pioneiros da capital federal, migrantes desfavorecidos. 

terça-feira, 19 de setembro de 2017

TRILHA "O CINEASTA DA SELVA"


Faz 20 anos que o filme-doc "O Cineasta da Selva" estreiou no Festival de Brasília e daí saímos com três prêmios. O mais extraordinário que a sessão aconteceu no dia 26 de novembro, justamente na data em que aniversaria Silvino Santos (1886-1970). Tudo por mera coincidência. 

Este ano, Caito Marcondes II & #TecoCardoso estão disponibilizando o acesso on line do álbum com a trilha do filme. 

Ouçam...imperdível
https://onerpm.com/album/5137929301

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A CONTRA CULTURA EM PERSPECTIVA _ LUIZ CARLOS MACIEL


No tempo das flores nos anos de chumbo..."Contracultura", "Underground" no ponto de vista de quem sabia antes de tudo & por todos nós anos 70: 
Luiz Carlos Maciel


A CONTRA CULTURA EM PERSPECTIVA

A história da contracultura é contada por eventos, grandes e pequenos, e pelos indivíduos envolvidos nele. Uma lista do que nela não poderia faltar, é alentada. Grandes concertos de rock, em locais abertos, diante de multidões de jovens, principalmente o realizado em Woodstock, assistido por 500 mil pessoas e que se tornou um símbolo em 1969. A carreira de conjuntos famosos como os Beatles, os Rolling Stones, Pink Floyd, Led Zeppelin e tantos outros. Os discos marcantes que gravaram ainda na era do LP. Os poetas de San Francisco, editados pela City Lights. A mitologia que colocou uma áurea libertária nas drogas psicodélicas, especialmente a maconha, o LSD, os cogumelos mágicos, o cactus peyote. O abandono do pensamento racional, matemático, em favor do pensamento mágico, ocultistas como Aleister Crowley, divulgadores do ácido lisérgico, como Timothy Leary. 

As rebeliões estudantis e a campanha contra a guerra do Vietnã. O prestígio de doutrinas vindas do Oriente, como as várias crenças da Índia, o prestígio de gurus como Osho, e a influência do Budismo, do Taoísmo, do Zen Budismo. O advento da anti-psiquiatria de Ronnie Laing e David Cooper, resgatando a loucura de sua maldição. Livros reveladores do Oriente: o I-Ching que propicia a descoberta da sincronicidade, o que – como veremos daqui a pouco - iria redundar numa nova maneira de conceber o próprio Tempo. O Livro Tibetano dos Mortos que, adaptado por Leary, vira um guia para viagens de ácido. O trabalho de divulgadores da visão oriental, como Alan Watts. A revolução nas artes em geral. O teatro off-Broadway em Nova York, lar do Living Theatre, de Judith Malina e Julien Beck, na vanguarda da contracultura. O título de um de seus espetáculos, Paradise Now, indica que a contracultura vem do futuro porque faz exigências prementes ao presente. O musical Hair, na Broadway. O cinema de vanguarda. A imprensa alternativa materializando uma imagem do mundo diferente da divulgada pela media capitalista. As anti-Universidades que libertam o conhecimento humano dos limites da caretice acadêmica para sua abertura a novos e surpreendentes horizontes. 

O mundo da contracultura parece inesgotável. Se continuar a fazer este inventário, acho que não vou terminar nunca...No Brasil, na fase mais feroz da ditadura militar, quando nossos jovens experimentavam o apelo para a ação armada, peço licença para apontar no sentido de uma alternativa: as primeiras informações sobre nascente contracultura que foram publicadas entre nós foram registradas pelas páginas do Underground do Pasquim, sob minha responsabilidade. Minha participação no surgimento da contracultura brasileira se confundiu com minha atividade profissional como jornalista. Fui um dos responsáveis pelo aparecimento de uma imprensa alternativa entre nós, em publicações como a primeira Rolling Stone e a Flor do Mal. Se a guerra do Vietnã estimulou o surgimento da contracultura americana, aqui uma brutalidade semelhante, a ditadura militar, cumpriu o mesmo papel. Ela motivou artistas brasileiros importantes como Caetano Veloso e Gilberto Gil com seu Tropicalismo, Raul Seixas com sua Sociedade Alternativa e muitos outros. É preciso lembrar os poetas da Nuvem Cigana, a geração do mimeógrafo, o Circo Voador e seus artistas, Jorge Mautner, Rogério Duarte, José Agripino de Paula, Torquato Neto, Tavinho Paes, poeta e ativista cultural que continua a todo vapor até hoje, e tantos outros. Eventos como as noites do Curtisom, no Rio, o Festival de Guarapari, a multiplicação das comunidades rurais formadas por jovens que abandonaram as grandes cidades, o número crescente de espectadores para shows com a música da nova geração, a multiplicação da imprensa alternativa, e o crescente consumo de drogas alucinógenas, ou sagradas, são fenômenos que merecem consideração. 

A contracultura se alastrava por toda parte, até por aqui. Mas tudo começou com o movimento pacifista que gostava de mostrar Lord Bertrand Russell lutando pela paz na Trafagal Square, em Londres. O símbolo do movimento era exatamente o mesmo que os hippies haveriam depois de popularizar em todo o mundo, traduzindo-o no slogan fundamental Make Love Not War. Nos USA, o movimento foi abraçado por jovens universitários que, a começar por Berkeley, se espalhou ràpidamente por todos campus do país, graças, entre outros fatores, ao documentário Operation Abolition que as autoridades divulgaram por toda parte, mostrando a violenta repressão policial que se abateu sobre os meninos da California que protestavam contra a guerra no Vietnã, com o objetivo de intimidar os meninos do resto dos USA. O resultado foi o inverso do pretendido. Os jovens americanos de todos os lugares ficaram revoltados com a estupidez policial e aderiram ao movimento pacifista. Atenderam à recomendação de Timothy Leary para turn on, tune in e drop out. Cairam fora. Queimaram publicamente seus certificados para o serviço militar e preferiram tornar-se marginais da sociedade estabelecida. Vestiram roupas diferentes e vistosas, deixaram os cabelos crescer, acenderam seus cigarrinhos maconha, tomaram seus ácidos lisérgicos e viraram a mesa. Foram os primeiros hippies. Sem embasamentos teóricos, a partir da intuição e da ação pura, criaram um movimento surpreendente no melhor estilo do grupo-em-fusão, definido por Sartre como a única rebelião eficiente contra a opressão do “inferno do Prático Inerte”, isto é, o Sistema até hoje infelizmente vigente e seus mecanismos de manipulação e controle – e que Philip K. Dick chama de Prisão de Ferro Negro. Sim, o Sistema, o adversário, já havia sido identificado e devidamente caracterizado. Desde Marx , pelo conceito de alienação, a Georg Lukacs, pelo de reificação, até Sartre, pelo de serialização, ou mesmo de Heidegger, pelo de maquinação, ou de Philip K. Dick e sua visão da Prisão de Ferro Negro, sabíamos quem era e como agia o adversário. Mas ele não esperava tomar um susto tão grande quanto, de repente, viu-se diante de uma contestação que não se definia pelo confronto direto, como as revoluções anteriores, mas por uma manobra indireta, a da alternativa em todas as dimensões de nosso ser-no-mundo, como diria Heidegger. Foram os dias áureos do Flower Power – ou da Sociedade Alternativa, como a preferia chamar o brasileiro Raul Seixas. 

O gesto da hippie que enfia delicadamente uma flor na boca de um fuzil empunhado por um soldado a serviço da repressão, é uma síntese visual que certamente vale por mil palavras.

- Trecho do ensaio inédito Memórias do Futuro, Luis Carlos Maciel

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

AMAZÔNIA - REVOGAÇÃO É PIOR QUE O SONETO


URGENTE! 

A "REVOGAÇÃO" É PIOR QUE O SONETO. 

O "dito-cujo" acaba de revogar o decreto que esquartejava um pedaço precioso da Amazônia, mas não fiquem achando que a destruição deste patrimônio ambiental se encontra salvo, mas ao contrário, a sanha pela violência que ameaça de extinção sua paisagem natural e humana continua em processo. Mais da metade da floresta de Rondônia virou fumaça, grande parte do Pará, sobretudo a região sul também virou poeira, os arredores de Manaus é só assoreamento, devastação & calorão de fritar os miolos. 

A AMAZÔNIA 😡AMEAÇADA.


O GRITO DE IVAN SERPA


Ao meio dos eventos que resultaram no Golpe 64, o artista carioca Ivan Serpa produziu uma das obras mais simbólicas deste período: "FIGURA". 


Pode-se fazer paralelo ao "O Grito" (1893) de Edvard Munch. Essas duas pinturas expressam uma angustia profunda de alguém (pessoas, grupos, populações) em desespero existencial, diante dos impasses e das frustrações coletivas.

CEUVAGEM

"Livre-pensar é só pensar"

www.tudoporamoraocinema.com.br

Minha foto
Nasceu em Manaus-AM. Cursou o Instituto de Artes e Arquitetura-UnB(73). Artes Cênicas - Parque Lage,RJ(77/78). Trabalha há mais de vinte anos em projetos autorais,dirigindo filmes documentários: "TUDO POR AMOR AO CINEMA" (2014),"O Cineasta da Selva"(97),"Via Látex, brasiliensis"(2013), "Encontro dos Sabores-no Rio Negro"(08),"Higienópolis"(06),"Que Viva Glauber!"(91),"Guaraná, Olho de Gente"(82),"A Arvore da Fortuna"(92),"A Agonia do Mogno" (92), "Lina Bo Bardi"(93),"Davi contra Golias"(94), "O Brasil Grande e os Índios Gigantes"(95),"O Sangue da Terra"(83),"Arquitetura do Lugar"(2000),"Teatro Amazonas"(02),"Gráfica Utópica"(03), "O Sangue da Terra" (1983/84), "Guaraná, Olho de Gente" (1981-1982), "Via Láctea, Dialética - do Terceiro Mundo Para o Terceiro Milênio" (1981) entre outros. Saiba mais: "O Cinema da Retomada", Lucia Nagib-Editora 34, 2002. "Memórias Inapagáveis - Um olhar histórico no Acervo Videobrasil/ Unerasable Memories - A historic Look at the Videobrasil Collection"-Org.: Agustín Pérez Rubío. Ed. Sesc São Paulo: Videobrasil, SP, 2014, pág.: 140-151 by Cristiana Tejo.